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Gabinete Português de Leitura - Bahia

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30 mar 2017

Olhar do Palácio sobre o Gabinete

por Albino Castro
O mundo das artes reverencia, com razão, uma das joias mais preciosas do Império Português, a riquíssima arquitetura manuelina, o gótico tardio lusitano, cujos bordados de suas linhas adornam, não só, catedrais, como a Sé de Braga, e mosteiros, como os Jerônimos, em Lisboa, mas também monumentos, como a Torre de Belém, no Estuário do Rio Tejo, na capital, e palácios, como o Paço de Dom Manuel I, em Évora. São traços e curvas herdadas da sobriedade da Idade Média germânica e revitalizadas nas décadas do apogeu da Coroa, nos albores da Idade Moderna, quando o soberano que dá nome ao estilo, Dom Manuel I (1469 – 1521), O Bem- Aventurado, abraçou, literalmente, o planeta, ao alcançar, com o Almirante Vasco da Gama (1469 – 1524), a Índia, em 1498, contornando as Áfricas, e, dois anos depois, ao descobrir, com Pedro Álvares Cabral (1467 – 1520), as terras do que seria o imenso Portugal das Américas. Duas das mais relevantes obras manuelinas encontradas no Brasil foram erguidos depois da Idade Moderna e, por isso, são chamadas de neo-manuelinas. A primeira delas é a sede do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, às vésperas de completar 180 anos, próximo à atual Praça Tiradentes, antigo Rossio Grande, prédio inaugurado em 1887, com a presença da Princesa Regente Isabel de Bragança (1846 – 1921), A Redentora, filha do Imperador do Dom Pedro II (1825 – 1891), O Magnânimo. A segunda, criada em 1863, está em Salvador, primeira capital do País, diante dos jardins da Praça da Piedade, no centro, e prepara-se para comemorar no próximo dia três de fevereiro de 2018 o centenário da sede. Existem outros dois gabinetes lusitanos, fundados igualmente no século XIX – o de Recife, em 1850, e o de Belém do Pará, em 1867 -, entretanto, nenhum deles possui estilo neo-manuelino.

 

Passei parte da adolescência, em Salvador, a contemplar o imponente Gabinete Português da Bahia, quase todas as tardes, após as aulas, dos balcões do Palácio das Joias, à Avenida Sete, número 111, de propriedade de meu querido e saudoso pai, o espanhol galego Don Albino, de quem herdei o nome. Cresci admirando os seus traçados e o invejável acervo de livros. Tenho uma lembrança muito carinhosa da joalheria e do Gabinete – que estão sempre presentes no imaginário familiar. O Palácio das Joias foi fundado há 70 anos pelo meu pai, em 1947, pouco depois de desembarcar no Brasil, antes de completar 20 anos de idade. Trabalharam, lá, irmãos, cunhado e primos dele, bem como jovens galegos que não paravam de emigrar para Salvador depois da Segunda Guerra. A foto que ilustra a coluna é de 1950 e nela aparecem, no balcão do qual se tinha uma vista espetacular do Gabinete, os queridos e saudosos tios Ramiro, meu padrinho de batismo, e Alejandro, ambos irmãos de Don Albino, que aparece na sequência, e, por último, o ‘balconista’ Angelito, como era chamado, originário de um pueblo próximo à Xunqueiras, aldeia de minha família paterna, à altura das Rías Baixas, próxima à Redondela e a Vigo, em Pontevedra, uma das quatro províncias que formam a Região Autônoma da Galícia. Aprendi a amar os relógios, as canetas-tinteiro e a delicada ourivesaria no Palácio das Joias, que existiu até 1964, quando foi incorporado por papai à sua rede de sapatarias, a Senador Calçados, que chegou a ter 11 lojas espalhadas por toda Salvador – impulsionada por um slogan repetido todas as noites em comerciais que iam ao ar no único canal de televisão baiano à época existente, a TV Itapoan, dos Diários Associados: “A moda apontou, Senador lançou”. A Senador Calçados fecharia as portas em 1979, após a morte de meu pai, muito precoce, recién cumplidos 53 anos de idade. A Praça da Piedade seria sempre, para mim, o entroncamento mágico de duas culturas que tiveram o mesmo berço celta – a da Galécia do Norte, da qual veio Don Albino, conhecida como Galícia, que se estende do Rio Minho aos contrafortes de La Coruña, e a Galécia do Sul, que foi o berço de Portugal, das ribeirinhas minhotas ao Rio Mondego, que banha a sereníssima Coimbra.

 

O talentoso soteropolitano Gilberto Gil afirmou, em 1969, que a Bahia lhe dera régua e compasso, na sua música de despedida do Brasil, Aquele Abraço, acompanhando o conterrâneo Caetano Veloso, rumo ao exílio em Londres. Vou parafraseá-lo e afirmar que ganhei régua e compasso, nos primeiros anos 1960, na Praça da Piedade, ao descobrir, com o olhar curioso, do Palácio das Joias, onde se falava o idioma galego, o mágico universo dos livros na língua de Luis de Camões guardados no prédio neo-manuelino do Gabinete.
Portugal em Foco

Coluna Mundos ao Mundo nº 212

(Edição de 30 de março de 2017)

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