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Gabinete Português de Leitura - Bahia

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3 out 2013

Colóquio discute Transpessoalidade no Gabinete Português de Leitura

Dando continuidade às comemorações de seu sesquicentenário de  fundação, o Gabinete Português de Leitura promoveu na tarde do dia 15 de outubro, um Colóquio sobre Transpessoalidade, com O Samurai da Voz, Taurino Araújo. O encontro discutiu o caminho do ser humano para o desenvolvimento transpessoal e autossustentável através da meditação, religião, respiração e oráculos. Para o orador, é preciso que as pessoas se posicionem acima da tensão conflitante do cotidiano, compreendendo a filosofia e os simbolismos existentes para a construção de um código moral inteligente.

Além de intelectuais e acadêmicos ligados às áreas de educação, governo, negócios e terceiro setor, estiveram presentes o presidente do Gabinete, Manuel Bernardino, o diretor de Cultura, Antony Arroyo, o cônsul de Portugal na Bahia, José Manuel Lomba, o professor doutor Eduardo Boaventura (autoridade em Heidegger), a psicóloga Graça Soares (especialista no tratamento da criança interior ferida), a professora Kátia Franco (autora de A sonoridade da Surdez) e a cinesióloga Jussara Marta (autoridade em linguagem muscular). Por parte da plateia, houve as intervenções da doutora Delvair Brito Alves e da educadora Joedil Brasil.

Sobre o Autor – Taurino Araújo Neto (44), nasceu em Jequié (BA) e em 2012 foi candidato a vereador, ficando como suplente com 292 votos pelo PDT. O mergulho hermenêutico na Transpessoalidade se deu inicialmente pela poesia em 1983, seguido pela formação no Magistério.  Logo após a participação no movimento das “Diretas Já”, ingressou no curso de Direito, se tornando o secretario de Administração mais jovem do Brasil. Em um bate-papo, o professor fala das teorias, influências e importância do tema para o ser humano Transpessoal.

Confira as fotos do evento aqui 

Sobre o Autor – Taurino Araújo Neto (44), nasceu em Jequié (BA) e em 2012 foi candidato a vereador, ficando como suplente com 292 votos pelo PDT. O mergulho hermenêutico na Transpessoalidade se deu inicialmente pela poesia em 1983, seguido pela formação no Magistério.  Logo após a participação no movimento das “Diretas Já”, ingressou no curso de Direito, se tornando o secretario de Administração mais jovem do Brasil. Em um bate-papo, o professor fala das teorias, influências e importância do tema para o ser humano Transpessoal.

Confira a entrevista:

 O senhor afirma que a Transpessoalidade é um problema da rotina contemporânea. O que é essa Transpessoalidade e como ela afeta as pessoas individual e/ou coletivamente? Isso mesmo. Com a perspectiva hermenêutica sobre a Transpessoalidade proponho uma metanoia (mudança de pensamento).   O fato de eu ser canhoto acelera processo, pois exige uma espécie de alinhamento dos hemisférios (risos). Pierre Weil lembra que o homem nasce sozinho, comunica-se com Deus sozinho e também morre sozinho. Transpessoalidade remete à possibilidade de compreensão além dos 5 sentidos. O pressuposto é que os sentidos tanto nos orientam quanto nos enganam. Cheguei à Transpessoalidade através da hermenêutica (ciência da interpretação) e a esta através dos oráculos, do esoterismo. Com Jung, aprendi sobre a interdependência entre consciente e inconsciente, sendo impossível o bem-estar de um sem o bem-estar do outro: consciência e razão são coisas distintas. Valoriza-se, também, as formas não-racionais de apreensão de conhecimento  para chegar-se ao verdadeiro centro da personalidade: o conhecimento da persona utilizada para triunfar e da “sombra” (lado oculto) somados à integração dos traços femininos  no homem (anima) e dos traços masculinos na mulher (animus).

Algo precisaria ser “revisto” e acrescentado? Sim. É necessária uma reinvenção, até mesmo para completar o normalmente perceptível. O desafio, entretanto, é a tendência a ver tudo sempre “como de costume” (comme d’habitude), exclusivamente, a partir de qualquer visão paradigmática posta. Para quem não sabe, “como de costume” é o tema de uma canção francesa falando de um casal se separando, carregando o passado…  Com essa temática, comme d’habitude teve apenas sucesso restrito, mas isso possibilitou que Paul Anka a ouvisse na televisão francesa (melodia linda), adquirisse os direitos em língua inglesa para seu estúdio e reinventasse a canção (nada mais seria como de costume!) agora, sob o título de my way, imortalizada na voz de Frank Sinatra. A reinvenção ocasionou, também, o sucesso mundial da versão original, na voz de Claude François.  Como diria meu amigo Rommel Robatto, “reflitamos, pois”.

Para compreender a Transpessoalidade seria necessária atitude mental específica?

A hermenêutica de algo, segundo Heidegger e Gadamer, se refere ao mundo da experiência com esse “algo”, da pré-compreensão. Todos já somos a partir da estrutura prévia do sentido de algo. Ensino que a Transpessoalidade é texto e contexto para compreensão diferenciada e o mais completa possível (além dos 5 sentidos). É, portanto, questão relativa à existência do intérprete, além da aparência ou superficialidade. Em Verdade e Método, Gadamer recomenda examinarmos opiniões quanto à legitimação (origem e validez) libertando-nos de “pré-juízos” e preconceitos resultantes da realidade histórica do nosso ser. Quem quer compreender um texto, lembra Gadamer, “tem de estar disposto a deixar que ele diga algo por si”. É imprescindível abertura à opinião do outro ou do texto. A receptividade, nesse caso, não é neutralidade nem anulamento, mas autopermissão para aprofundar-se e, desse modo, ampliar a pré-compreensão. Quem se permite, aprofunda e expande, interpreta e compreende quase que ao mesmo tempo.

Como se deu essa abordagem hermenêutica da transpessoalidade? Desde o início, meu foco sempre foi melhorar a pré-compreensão do mundo, assim considerado texto e contexto. Nesse sentido, a influência de Gadamer  (verdade e método) foi fundamental. Uma ideia somente pode ser compreendida dentro de um contexto. Na perspectiva transpessoal, esse mundo, na forma como a maioria de nós o enxerga, é apenas um contexto menor.  Percebi que a Transpessoalidade amplia esse contexto. Gadamer se refere a um “círculo hermenêutico”.

 

Fatores externos teriam influenciado esse mergulho hermenêutico na Transpessoalidade? Com certeza. Recordando aquele contexto, identifico o início de meu percurso através da poesia, em 1983. A isso se segue a formação em magistério: “ensinar é o caminho que o professor escolheu para aprender” (Álvaro Vieira Pinto); a participação no movimento das Diretas Já, a agitação cultural, a vitoriosa luta pela estadualização de minha Universidade. Logo, o ingresso no curso de Direito, é algo extremamente enciclopédico: “o Direito serve à vida, é regramento da vida. É criado por ela e, de certo modo, a cria” (Pontes de Miranda). Pouco tempo depois me torno o mais jovem secretário de Administração do Brasil, crio o curso prático de redação, ainda em Ubatã. A concepção hermenêutica da Transpessoalidade, portanto, é uma jornada autodidática pautada pela necessidade de uma educação continuada, focalizada em educação, governo, negócios e terceiro setor. De algum modo, todos nós somos instados a fazer isso, se quisermos viver conforme os nossos sonhos, além dos grilhões ditados pelos condicionamentos sociais concretos. O sentido e alcance desse percurso é analisado na trilogia Taurino Araújo advogado e professor em autodefesa: Desagravo Público; na Metáfrase ao Comendador Taurino Araújo, de Washington Trindade e em Taurino Araújo: singular e plural, de Agenor Sampaio Neto.

 

Em que consiste o círculo hermenêutico? Sua perspectiva da Transpessoalidade é permeada por algo mais? Mais ou menos na mesma época que comecei a trabalhar com o “círculo hermenêutico” me identifiquei também com o estilo de comunicação oriental, que é circular, mas, nem por isso, deixa de ser assertivo. Sob o novo enfoque, então, entraria na totalidade. Em Gadamer, a capacidade de compreender é limitada pela profundidade e extensão das pré-compreensões quanto ao objeto. É necessário, portanto, compreender para compreender ainda mais. É a ampliação do contexto: o horizonte deve ser ampliado para nos tornarmos capazes de novas compreensões. É imprescindível desenvolver formas cada vez mais eficientes de comunicação e novas possibilidades de leitura do mundo aparente. Se observarmos a palavra, por exemplo, veremos que ela possui grande carga argumentativa, embora nos enganemos quanto às dimensões expressivas e informativas.

Algum teórico em especial o levou a relacionar Transpessoalidade e aspectos comunicacionais? Na contemporaneidade, a palavra distingue o ser humano de modo decisivo. Philippe Breton escreve sobre a “palavra manipulada”, manipulada pela argumentação. O mergulho na Transpessoalidade permite “decodificar” mais eficientemente a conjuntura e fazer as devidas correções de rumo vendo, ouvindo, cheirando, degustando e sentindo a realidade além dos sentidos propriamente ditos. Nesse percurso, o mundo impõe a restrição cronológica, mas a Transpessoalidade permite ingressar no tempo interno do “infinito de possibilidade”: é o tempo psicológico (kairológico), do aumento da consciência, o que lida criativamente com sonhos e condicionamentos sociais concretos, tanto com sucesso quanto fracasso.

De que maneira o controle da Transpessoalidade pode contribuir ou promover a construção de um código moral inteligente? A falta de Transpessoalidade afeta ou inibe o código moral do ser humano? Segundo Erich Fromm, cada um de nós necessita desenvolver capacidade de relacionamento, formar laços e raízes, transcender para o domínio e controle da solução de problemas, desenvolver um claro sentido de identidade e possuir um significativo sistema de referências, numa sociedade que estimula a orientação para o marketing encorajando o desenvolvimento de “personalidade artificial”. Acredito que sonho, ousadia, planejamento e serviço podem realizar votos por um mundo plural, mais justo e mais humano. Nessa perspectiva, sonho relaciona-se ao elemento ar; ousadia ao fogo; planejamento elemento terra e água, ao serviço. A Transpessoalidade permite fazer esse tipo de link. Meu código moral é inteligente. Contém visão totalizadora.

O objetivo da reflexão que o senhor sugere é para a formação de indivíduos autossustentáveis? O que isso significa e como esse processo acontece? Sim, sustentáveis através de um código moral inteligente. O mergulho na Transpessoalidade remete à autorrealização e autorrealização é sustentabilidade a partir de si mesmo. Quando transcendemos às motivações egoísticas, o propósito toma um sentido totalizante e a união com o todo é uma força sinérgica muito grande. No positivismo, o amor é base da “ordem e progresso”. Em seu estágio mais amadurecido Augusto Comte alça a moralidade ao estágio maior das ciências. Moralidade remete a amor e amor redunda em transpessoalidade.

O que será abordado no Colóquio e qual o objetivo da apresentação desse tema? O que o público deve esperar desse encontro? Sobre os diversos caminhos que podem conduzir o ser humano à Transpessoalidade: meditação, religião, respiração, oráculos… São vários os caminhos. Meu ponto de partida diz respeito às áreas de domínio, exemplificando: a importância do domínio simbólico no diálogo e monólogo transpessoais, a integração da in(ter)dependência pensamento-sentimento e ação (se estas dimensões não se encontram equilibradas é como se o indivíduo navegasse em mar revolto, dados os extremos altos e baixos ocasionados pelas ênfases e supressões num ou noutro aspecto).

Como seria possível, através da Transpessoalidade, começar a navegar em águas tranquilas?

Através da identificação dos valores que nos motivam a todos e a cada um estabelece-se um estilo ou combinação de estilos que se adapte à natureza e às aspirações de cada um, levando-se em conta a importância da permeabilidade alegria, felicidade, relaxamento, amor, generosidade, gratidão e liberdade nos diversos processos dinâmicos; a necessidade de visão grandiosa e construção de vínculos elevados; a integração pragmática do sonho, na perspectiva sonho-ousadia-planejamento-e-serviço, isso nos mostraria um ponto de equilíbrio, uma frequência temporária de conforto. Com o tempo, o viver criativo e o pensamento diferente; a liberdade de escolha e a comunicação eficaz que fundamentam a construção de um código moral inteligente,  através da integração de ética e estética, aparência e essência; objetivação, escuta ativa e afirmação argumentada do ponto de vista enquanto mecanismos para solução de situações complexas que são os desafios normais da gestão, autogestão, ensino, aprendizagem e terapia. Nesse percurso de uma hora apenas, estimularemos dinâmicas sobre paz, respeito, amor, tolerância, felicidade, responsabilidade, cooperação, humildade, honestidade, simplicidade e união verdadeira, poderiam nos conduzir a novos estágios e, quiçá à autorrealização.

 

O termo “Samurai da voz” foi atribuído ao Senhor. Por que razão? A união de ocidente e oriente em si mesma revela alguém que não se contenta em ser mero produto cultural. O ambiente no qual sou considerado “o samurai da voz” remete à cultura japonesa toda permeada por elementos que se traduzem em equilíbrio, harmonia, artes marciais, diferentes dos conceitos em voga no ocidente. Nos negócios, v. g., o caminho de um samurai seria demarcado pela paciência, virtude que se traduzira em longas rodadas de negociação e busca da compreensão da posição do outro para encontrar soluções adequadas. A alusão a “o Samurai da Voz”, portanto, é complexa, mas vou tentar explicar. Na prática, significa a combinação de sentido de justiça (GI); coragem (YU); compaixão (JIN); polidez; (REI); sinceridade (MAKOTO); glória (MEIYO) e senso de dever (CHUGO) alcançados com ou através do emprego das palavras, observando o BOSHIDO (código de honra do Samurai).

Como o BOSHIDO (código de honra do Samurai) fortaleceria tanto o seu discurso? Paulo Freire ensina que o pensamento em si mesmo já constitui atuação no mundo, pois decorre de escolha. Na medida em que emprego o pensamento circular e me valho, de igual modo, de um “círculo hermenêutico”, isso redunda numa atitude direta, assertiva, semelhante à dos guerreiros. É como se estivesse lutando nesses moldes. A coragem moral com que faço isso traduz bravura heroica; amor incondicional à humanidade, com polidez e verdade totais, lealdade, semelhante à dos guerreiros tradicionais. Trata-se, portanto, de um estado de criatividade plena persona, sombra e anima estarão aí, integradas.

Mais algum teórico concorreria para essa abordagem hermenêutica da transpessoalidade? Maslow. Cheguei até ele através da pirâmide de hierarquia das necessidades, culminando com a busca da autorrealização. Há uma dialética no pensamento circular empregado por mim e isso permite explicar quase tudo, com verdade total, modificando os contextos de intervenção. É o que a Psicologia chama de construcionismo social. A questão de ser “o samurai da voz” volta à baila justamente quando recebo o Título de Cidadão Benemérito da Liberdade e da Justiça Social João Mangabeira, um dos seis escolhidos em vinte anos de existência dessa honraria. Para os que compartilham dessa comparação, isso seria a glória no (do) processo comunicativo. No meu caso, demarcado por recorrente apelo ao holismo e ao desenvolvimento transpessoal. Na perspectiva de Maslow, tratar-se-ia de um movimento cada vez mais forte em direção à unidade, integração e sinergia dentro de mim. Isso seria, naturalmente, a transcendência do eu estabelecendo contato com o outro. Por isso, “o benemérito comendador” e “o samurai da voz” são os dois lados de uma mesma pessoa, através da comunicação efetiva. Parece que fiz a lição de casa, pois ser “o samurai da voz” implica (necessariamente) observar um caminho de autorrealização, através de recursos inerentes, pois “a força vem do interior”, esse lugar a ser reexplorado justamente numa perspectiva transpessoal. Unindo o sertão e o cais.

 

 

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